22/04/2012 12h56
- Atualizado em
22/04/2012 13h16
G1 vai ao aterro de Gramacho e ouve drama de famílias de catadores
Após 30 anos trabalhando no lixão, catador não consegue mais andar.
Casal que trabalha no aterro do Rio já perdeu quatro filhos por doença.
Janaína Carvalho
Do G1 RJ
As marcas que o corpo carrega após décadas de trabalho no lixão de
Gramacho ficam pequenas quando comparadas às dificuldades que a vida
impõe do outro lado do muro do aterro sanitário de
Duque de Caxias,
na Baixada Fluminense. Há seis meses deitado sobre uma cama num casebre
de um cômodo, Jorge Pinheiro dos Santos, 66 anos, vive as consequências
de 30 anos trabalhando como catador de lixo.
O aterro sanitário de Gramacho possui 60 milhões de toneladas de lixo
acumuladas em 1,3 milhão de metros quadrados. O fechamento gradativo do
lixão começou em abril de 2011 e estava programado para terminar em
junho deste ano. A prefeitura, no entanto, chegou a antecipar o
fechamento para abril, mas depois adiou para maio o fim das atividades
no aterro.
Com o fim do aterro de Gramacho, as 8,5 mil toneladas de lixo da cidade do
Rio de Janeiro
vão para a Central de Tratamento de Resíduos de Seropédica. O restante
que vinha de outros municípios vai para a central de Nova Iguaçu e uma a
ser inaugurada em Paracambi, todos também na Baixada Fluminense.
A rotina cruel dos catadores de Jardim Gramacho ganhou projeção e o
documentário "Lixo extraordinário" chegou a disputar o Oscar na
categoria no ano passado.
Jorge em sua casa na comunidade de Chatuba
(Foto: Janaína Carvalho/G1)
Jorge, ou Jorjão, como é chamado na comunidade da Chatuba, sofreu com
dores nas articulações e no joelho durante muitos anos. Mas um dia,
quando acordou, não podia mais colocar os pés no chão. Com os dedos dos
pés contorcidos e as pernas atrofiadas, Jorjão não levanta mais da cama e
conta com a ajuda dos vizinhos e do pastor da igreja da comunidade para
se alimentar.
“Passei a vida toda subindo e descendo essas rampas aqui do lixão. E
hoje em dia a situação é melhor que antigamente. Na minha época, descia
com tudo o que catava no burrinho sem rabo (espécie de carroça) e ficava
atolado no mangue até o meio das pernas. Era muito esforço”, diz
Jorjão.
Vivendo numa região onde não há saneamento básico, pavimentação e os
barracos, na maioria, são feitos de madeira, o ex-catador vive sozinho
numa casa doada pelo pastor da igreja da comunidade e se alimenta com a
ajuda dos vizinhos.
“Todo dia o pessoal da igreja traz almoço e janta para mim. Sou sozinho
no mundo, mas eles passaram a ser minha família. Nunca tive filhos, não
casei e meus irmãos me abandonaram”, diz Jorjão, referindo-se à família
com a qual ele perdeu o contato logo depois que foi para Gramacho.
‘Vivo do lixo, mas não sou lixo’
Catadores há 12 anos, Damiana Jesus Maria, 52 anos, e Carlos Henrique
de Oliveira, 40, já perderam quatro filhos desde que ficaram
desempregados e foram trabalhar no lixão. “Um morreu de pneumonia,
outros ficaram desnutridos e um deles até hoje eu não sei por que
morreu. Cheguei no hospital, a mulher olhou para mim e disse que eu era
uma transmissão de doença ambulante. Fui lá com um filho doente e ela me
tratou como lixo. Eu vivo do lixo, mas não sou lixo. Sou gente”, disse
Damiana, visivelmente emocionada, após interromper o trabalho no meio do
lixão para dividir com alguém um pouco da sua história e indignação.
Damiana de Jesus e Carlos Henrique no aterro
sanitário de Gramacho (Foto: Janaína Carvalho/G1)
Após observar a mulher durante vários minutos e consentir com tudo o
que ela dizia balançando a cabeça, Carlos resolveu intervir. “Temos nove
filhos vivos e trabalhamos muito para sustentar todos. Muitos ainda são
pequenos. Somos pobres, mas vivemos do nosso trabalho. Ela (Damiana)
vinha trabalhar aqui na rampa mesmo quando estava grávida. A gente nunca
teve escolha”, afirmou o catador, pedindo licença para poder voltar ao
trabalho.
Para Ana Maria Silva, 64 anos, o descaso não é só do lado de fora do
aterro. Segundo ela, inúmeros amigos já morreram atropelados pelos
caminhões e tratores que circulam nas rampas de Gramacho. “Já perdi as
contas. Quantos amigos já vi morrer debaixo dessas rodas. Eles não veem
gente aqui. Somos coisa. Não querem nem saber, passam por cima da gente
mesmo”, disse a catadora, indignada.
Seis filhos e menos de três metros quadrados para viver
Aos 27 anos, Daniele Áurea Mendes da Silva vive do outro lado do muro
do aterro sanitário com seis filhos pequenos, além do marido, num cômodo
de madeira com cerca de três metros quadrados. Apesar da falta de
espaço e das condições precárias em que vive, Daniele prefere se apertar
em uma cama de casal e uma de solteiro para que ninguém fique no chão.
“Aqui tem muito rato e cobra. Não posso colocar nenhum dos meus filhos
no chão”, afirmou a mãe.
A família vive num casebre de madeira e para proteger os filhos do chão
de terra, ela usa alguns tapetes no chão irregular. Nenhum barraco da
comunidade possui água encanada, a não ser a casa do Sr. Jorjão. Ele
puxou um cano de água da rua, que abastece toda a comunidade.
Todos utilizam baldes para pegar água na casa de Jorjão. Mas o
abastecimento só é feito três vezes por semana, nos dias em que a água
cai. A prioridade para a maioria é dar banho nos filhos e cozinhar. Como
poucos barracos possuem banheiro, a maioria improvisa um lugar nos
fundos de casa, normalmente no meio de muito entulho.
“Às vezes, tenho vergonha que minhas amigas venham aqui. Então, prefiro
nem chamar. Mas sou feliz, meus filhos e meu marido são as maiores
preciosidades que eu tenho na vida. Fico feliz do lado deles em qualquer
lugar”, garante Daniele, que há 12 anos é casada com um catador e
também já trabalhou nas rampas do aterro.
A família não tem geladeira em casa, o que dificulta a vida da dona de
casa para conservar a comida dos filhos, que têm entre 5 meses e 12
anos. “Muitas vezes a batata da sopinha estraga só de um lado. Sei que
não posso ficar jogando comida fora, mas não tenho coragem de dar para
os meus filhos”, diz Daniele.
Se não bastassem as dificuldades impostas pela vida, os catadores ainda
convivem com milhares de moscas, insetos e muito mau cheiro, mesmo
estando do outro lado do muro do aterro sanitário. Isso se deve ao
despejo clandestino de lixo no interior da comunidade. Para não pagar a
entrada do aterro, vários caminhões entram na comunidade durante a
madrugada para de