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Há 10 anos, apenas insetos e animais peçonhentos frequentam a casa de
madeira tomada pelo matagal entre as ruas Getúlio Vargas e João Vidal,
em Guaraqueçaba, no Litoral do Paraná. As janelas sem vidro inteiro, as
tábuas caiadas, o mato crescido, tudo confere ao lugar um aspecto mal
assombrado. Mas o que assombra não é a visão da estrutura prestes a
desabar e sim o sumiço do dinheiro direcionado à manutenção dessa
repartição pública. A casinha de aparência macabra deixou de ser uma
delegacia há uma década, mas ainda assim consumiu R$ 153 mil do fundo
rotativo da Polícia Civil nos últimos oito anos.
O casebre de Guaraqueçaba é uma das dezenas de delegacias fantasmas
do Paraná, onde a única coisa real é o dinheiro a elas destinado. Os
recursos saem dos cofres da Polícia Civil, mas não chegam ao destino
final. Metade dos 399 municípios do estado não tem um único policial
civil. Placas desbotadas e distintivos pintados na parede dão pistas de
que se trata de uma delegacia. E só. Em muitas cidades, ela está
abandonada há anos ou simplesmente não existe, embora o dinheiro para
sua manutenção continue saindo do fundo rotativo. E não é pouco: foram
R$ 22,6 milhões nos últimos oito anos, média de R$ 2,8 milhões anuais.
Em Guaraqueçaba, de 8 mil habitantes, poucos sabem que aquele casebre
de aspecto sombrio já foi uma delegacia. “Falaram que iriam construir
outra delegacia, mas nunca aconteceu. Às vezes a gente precisa da
Polícia Civil”, diz uma vizinha da unidade. Quem precisa desses serviços
tem de recorrer a Antonina, em uma viagem de 100 quilômetros em estrada
de terra ou em duas horas de barco pelo mar. A delegacia ainda
funcionou por algum tempo em uma sala emprestada pelo quartel da Polícia
Militar, mas foi desativada há três anos. Nem assim o repasse do fundo
rotativo foi interrompido.
Investigação
Durante cinco meses, quatro jornalistas da Gazeta do Povo
investigaram as contas da Polícia Civil, tiveram acesso a documentos
secretos e percorreram 5 mil quilômetros em diversas regiões do Paraná
para comprovar o sumiço do dinheiro que deveria ser usado para manter as
delegacias abertas. As informações foram catalogadas em um banco de
dados disponível para acesso público no site especial
www.gazetadopovo.com.br/policiaforadalei.
Nele é possível ver quanto cada delegacia recebeu por ano desde 2004, o
número de policiais nas unidades (e a ausência deles em 205 cidades),
além da produtividade da polícia medida pela quantidade de inquéritos
instaurados. Guaraqueçaba não é exceção, antes uma regra. Em São Pedro
do Ivaí, no
Noroeste do estado, prefeitura e comerciantes juntaram dinheiro para
ajudar os policiais militares a erguer a nova delegacia, pois a anterior
não tinha condições de uso. Ninguém nem sequer sabia da existência dos
R$ 164.630 que nos últimos oito anos deveriam ter sido destinados à
manutenção da antiga unidade. Em Calógeras, distrito de Arapoti, na
região Norte do estado, uma família mora na delegacia desativada. Em
Cruzeiro do Sul, cidade de 4,5 mil habitantes na região Noroeste, mais
indícios de irregularidades nos repasses do fundo rotativo. O prédio de
tijolo à vista ostenta na entrada uma placa metálica onde
se lê Delegacia da Polícia Civil. Apesar de o portão branco enferrujado
permanecer aberto, não há motivos para passar por ele. Há seis anos os
serviços policiais estão suspensos em Cruzeiro do Sul. O mato com mais
de um metro de altura na frente, a ferrugem na grade e alguns vidros
estilhaçados retratam o abandono. Nem móveis existem. Moradores atestam:
desde 2006 não há um único policial civil ou
militar lotado na cidade. Falta estrutura e pessoal para registrar um
simples boletim de ocorrência, ato mais elementar da atividade policial.
As rondas são feitas uma ou duas vezes por dia por policiais militares
da vizinha Paranacity, sede da comarca. Mesmo fechada há anos, o
dinheiro para o funcionamento da delegacia continua saindo das contas da
Polícia Civil. Foram R$ 75.635 entre 2004 e 2011, média de R$ 9.454,38
por ano. A despeito dos gastos, nenhum inquérito foi instaurado entre
2008 e 2011 na cidade. Apesar de não existir na prática e de não dispor
de uma viatura
sequer, a delegacia de Cruzeiro do Sul recebe por mês uma cota de 400
litros de álcool, conforme relatório do Grupo Auxiliar Financeiro da
Polícia Civil, documento reservado obtido pela Gazeta do Povo. Sem
polícia, casos de violência típicos de cidade grande dão o clima de
insegurança. São casos como o do dono de uma farinheira cuja casa foi
invadida e a família ficou refém dos bandidos, do universitário
sequestrado ao descer do ônibus, das arruaças nos fins de semana.
By: INTERVALO DA
NOTICIAS