16/09/2012 | 08h40min Escala Noticias
Um boi é o verdadeiro bicho do Paraná
Um boi rústico e de
crescimento precoce será certificado como a primeira raça de gado
legitimamente paranaense. O gado purunã começou a ser desenvolvido pelos
pesquisadores do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) há 32 anos e, a
partir deste sábado, ganha credencial do Ministério da Agricultura.
Haverá até cerimônia para marcar o feito, durante a 35.ª Exposição Feira
Agropecuária, Industrial e Comercial de Ponta Grossa (Efapi), que
termina amanhã. O novo status do purunã permite a certificação ao
produtor.
A raça começou a ser desenvolvida em 1980 pelos pesquisadores Daniel
Perotto e José Luiz Moletta na fazenda Modelo, em Ponta Grossa, nos
Campos Gerais. Eles uniram as características genéticas do charolês,
caracu, angus e canchin para formar o purunã, com predominância taurina
(a maior parte do gado brasileiro é zebuína). O gado sintético ou
composto garantiu precocidade sexual e de abate, tornando-se, segundo
Perotto, uma alternativa à pecuária de corte.
Após 15 anos de experimentos, em 1995, a raça foi formada. O nome do
boi, que com o credenciamento será conhecido mundialmente como purunã,
foi dado em referência à Serra do Purunã, que separa o primeiro e o
segundo planaltos paranaenses.
Com algumas gerações criadas, o Iapar passou a comercializar touros,
sêmens e fêmeas em 2008. A produção é vendida aos interessados na
fazenda Modelo, que tem perto de 800 matrizes.
O credenciamento da raça prevê que o Iapar seja o órgão emissor do
Certificado Especial de Identificação e Produção (Ceip) ao produtor que
comprovar as características genéticas do gado purunã.
Para o pecuarista Piotre Laginski, de Cascavel, a notícia é
bem-vinda. “Isso vai trazer um grande benefício porque vai legalizar a
raça, o que era muito esperado. Futuramente, pretendo comercializar
genética do purunã”, comenta. Laginski comprou sêmen e touro da fazenda
Modelo e começou a criação em 2008.
Mais uma opção para a pecuária
Maria Gizele da Silva, da Sucursal de Ponta Grossa
A consolidação do boi purunã chega num período de retração da
pecuária paranaense. Enquanto em 2002, por exemplo, havia 10 milhões de
cabeças no Paraná, sendo 70% de gado de corte, hoje esse plantel não
passa de 6,5 milhões de cabeças. Além disso, o avanço da soja e da
cana-de-açúcar no território paranaense reduz a área da pecuária.
“Há previsão de aumento da área de agricultura. Nós estamos trabalhando
para incentivar o pecuarista a aumentar a produção, a aumentar a lotação
da área”, comenta o médico veterinário do Departamento de Economia
Rural (Deral) da Secretaria Estadual de Agricultura e Abastecimento
(Seab), Fábio Mezzadri. Ele acrescenta que hoje as propriedades
paranaenses têm em média 1,4 animal por hectare. “Esse indicador precisa
melhorar. Hoje a pecuária está migrando muito para os estados do Norte
do país que têm mais área”, observa.
A participação do purunã no plantel ainda é tímida. Conforme dados do
Iapar, há produtores espalhados nas regiões Oeste e Norte que, juntos,
têm perto de 2,5 mil cabeças de purunã. Para um dos idealizadores da
raça, Daniel Perotto, o purunã pode ser a terceira raça de gado de corte
mais expressiva do Paraná, atrás do angus e do nelore. “Eu sei até onde
o purunã pode chegar, ele não vai ser a primeira raça, mas estará entre
as três primeiras”, considera Perotto.
Para Mezzadri, é possível que o purunã não alavanque a produção pecuária
no estado, mas é uma ajuda. “O purunã, por si só, não vai salvar a
pecuária, mas é uma ferramenta a mais”, aponta.
Raças brigam por espaço
José Rocher
Dos cerca de 210 milhões de bovinos que existem no Brasil, 90% são de
raças zebuínas, restando pouco espaço para as taurinas. Entre as
zebuínas, a nelore ocupa perto de 80% do espaço. Nos cinco estados que
concentram metade do rebanho nacional — Mato Grosso, Minas Gerais, Mato
Grosso do Sul, Goiás e Pará – pastagens imensas salpicadas de pontinhos
brancos vistos à beira da estrada mostram a predominância desse gado,
que reflete a luz do sol e sofre menos com o calor tropical. Mesmo
assim, cresce a competição entre as raças sintéticas, que mostram
disposição para essa disputa.
Inserida no Brasil em meados dos anos 90, a raça sintética brahman,
por exemplo, chegou neste ano a 220 mil animais, conforme o setor. O
caminho trilhado pelo animal, criado nos Estados Unidos há meio século, é
o mesmo que precisa ser percorrido por novas raças como a purunã. O
brahman vem da mistura de guzerá, gir, khrisna valley e do prórpio
nelore. É usado por criadores que querem acelerar o ciclo de criação em
suas fazendas ou contar com fêmeas mais hábeis em reprodução, conta o
pecuarista Jovelino Carvalho Mineiro Filho, um dos principais
fornecedores de touros brahman e nelore do país.
Os pecuaristas de estados vizinhos como o Paraná, frequentam sua
fazenda, em Rancharia, no Oeste de São Paulo, em busca de animais mais
eficientes. O acesso à essa genética se dá por meio de leilões, na
própria fazenda ou virtuais (
www.fazendasantanna.com.br). Um reprodutor brahman vale cinco vezes mais que um boi de corte, relata Mineiro Filho, economista e apostador da pecuária.
A experiência com o gado brahman, no entanto, lhe mostrou que não é
fácil tirar espaço do nelore. “Não tem muito espaço para raça nova. Sem
zebu, não tem carne no Brasil. Uma nova raça bovina precisa provar
performance econômica e exercer plenamente sua função produtiva, de
forma sustentável”, avalia. Por outro lado, nota interesse crescente no
setor. “Cada vez mais pecuaristas descobrem as vantagens proporcionadas
por reprodutores com genética provada.”
Redação Escala Noticias
Gazeta do Povo